O Zen Vale dos Sinos tem como missão difundir os ensinamentos de Buda Shakiamuni em benefício de todos os seres.

quinta-feira, 31 de março de 2011


JAPÃO - por Monja Coen Sensei


Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo Japonês:kokoro.

Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência.

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no Nordeste japonês, surpreenderam o mundo de duas maneiras.

A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.

A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte americanas: ninguém queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantinham no espaço que a família havia reservado.

Não furaram as filas para assistência médica – quantas pessoas necessitando de remédios perdidos – mas esperaram sua vez também para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilharam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas de verduras, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam. Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasen é outra palavra chave. Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você, ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelo minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo.

Sumimasen. Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmissões na TV e na Internet pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico.

As vítimas encontradas, vivas ou mortas eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas – quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos, que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes a toda população pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que “somos um só povo e um só país”.

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me do exagero das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em Julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou há dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os eventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi a amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia?, me perguntaram. E só posso dizer : todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a meditar, a ter confiança, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)

Monja Coen

terça-feira, 22 de março de 2011

FINAL DE RETIRO
NEHAN SESSHIN
05 A 12 DE MARÇO DE 2011
VILA ZEN - VIAMÃO

quinta-feira, 17 de março de 2011

CERIMÔNIA DE KUYÔ


Zen Vale dos Sinos convida :

Cerimônia dedicada às vítimas do Japão.

Dia 18 de março.
Horário:
Zazen: 19h
Cerimônia: 19h30

Endereço:
Rua São Pedro, 1124 - alto
São Leopoldo

segunda-feira, 14 de março de 2011

JAPÃO

Em janeiro de 2010 iniciei este blog em luto pelas vítimas do terremoto que devastou Porto Príncipe, no Haiti, dentre elas, nossa estimada Zilda Arns – uma Bodisatva.

Agora o mundo assiste, consternado, ao desastre que está devastando parte do Japão. O terremoto seguido do tsunami e, na sequência as explosões nos reatores nucleares, que ainda não se tem a real dimensão das consequências.

Eu estava no retiro de Parinirvana de Buda Xaquiamuni, que significa o passamento de Buda, seu falecimento , quando recebi a notícia do terremoto, dia 11 de março. O retiro terminou dia 12 e, a medida que fui tomando contato com minha rotina do dia-a-dia, também fui tomando contato com a real dimensão dessa tragédia. Durante o retiro recebi também, os documentos oficiais que vieram do Japão, que comprovam que sou uma monja devidamente filiada à ordem Soto-Shu, com sede no Japão. Esse documento tem para mim um siginificado de certidão de nascimento. Que nessa vida eu nasço também a cada dia como uma monja zen-budista, religião oficial do Japão, cultura que tanto tem me inspirado e ensinado.

Isto me aproxima mais desse povo admirável, que respeito e amo tanto. Essa aproximação também aumenta meus sentimentos, pois os sinto tão próximos, apesar de estarem do outro lado do planeta.
Esse planeta terra, organismo vivo, que ao mesmo tempo que acolhe todas as formas de vida, é a vida, em todas as suas manifestações!
Gasshô!
Monja Kokai